SETEMBRO VERDE: IDOSOS VIVOS PODEM DOAR ÓRGÃOS, ESCLARECE ESPECIALISTA DO HUB

Vida

Quase 50 mil pessoas aguardam a doação de um órgão no Brasil, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes

Em 2023, Arivaldo Pereira Sampaio, na época aos 69 anos, viu seu filho, Alysson, perder a função do único rim após um ano e meio de hemodiálise, no Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB/HU Brasil). O transplante se tornou a única opção e toda a família se colocou à disposição para passar pela bateria de exames e identificar um possível doador. “Quando eu soube que era compatível, me senti recebendo uma grande graça de Deus por chegar àquela idade em condições físicas, psicológicas e espirituais de efetuar a doação de um rim para meu filho”.

Hoje em dia, Arivaldo ministra aulas de ginástica, alongamentos e condicionamento físico, faz musculação três vezes por semana e pratica corridas de rua entre 5 km e 10 km. “Faço acompanhamento no HUB uma vez por ano, com consultas e exames”, relata.

A campanha “Setembro Verde” reforça a importância da doação de órgãos e tecidos, um ato generoso que pode salvar vidas e restaurar a saúde de milhares de pessoas. No ano passado, o Brasil registrou 4.335 doadores efetivos, o que representa uma taxa de 20,3 doadores por milhão de população (pmp) – o maior número de doadores de órgãos já registrados na história do país. Enquanto isso, 49.489 mil brasileiros aguardam na fila de transplantes, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes. Apesar de muitas doações serem obtidas de doadores falecidos, no Brasil, é possível ser doador de órgãos e tecidos durante a vida, sem limite de idade máxima, o que possibilita a doação por parte de pessoas idosas [com idade igual ou superior a 60 anos].

De acordo com o médico nefrologista da Unidade de Transplantes do Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB/HU Brasil), Geraldo Freitas, no caso de doadores vivos, a avaliação é cuidadosa e tem, como objetivo principal, garantir a segurança para quem doa e quem recebe. “Não basta a pessoa estar saudável hoje. Precisamos ter uma boa perspectiva de que ela continuará saudável ao longo de sua vida, inclusive na idade avançada”, destaca.

Doadores idosos passam por análise ainda mais rigorosa

A pessoa idosa passa pelo mesmo processo de avaliação de qualquer doador vivo, porém, a análise tende a ser ainda mais cuidadosa em relação a prováveis riscos futuros decorrentes da retirada do órgão. “Falando especificamente da doação de rim, o processo é essencialmente o mesmo para pessoas mais jovens e para pessoas mais velhas. A diferença é que, nos doadores de maior idade, precisamos prestar ainda mais atenção à presença de doenças que possam aumentar o risco de viver com apenas um rim, por exemplo”, aponta o profissional.

A legislação brasileira permite a doação entre parentes até o quarto grau, além de cônjuges sem necessidade de autorização judicial. Para pessoas que não possuem esse grau de parentesco, a doação também pode ser realizada, mas depende de autorização judicial.

Do ponto de vista médico, não existe um exame único que diga se uma pessoa idosa pode ou não doar. A avaliação é individualizada e envolve exames de sangue, urina, avaliação da função dos rins, exames de imagem, avaliação cardiovascular.

Além disso, segundo Geraldo, a decisão não é baseada apenas em números. A equipe avalia o estado geral de saúde, a expectativa de vida, a possibilidade de a pessoa permanecer saudável com um único rim, e também se os riscos da cirurgia são aceitáveis. “Portanto, uma pessoa idosa que deseja doar não deve se excluir antecipadamente. O melhor caminho é procurar uma equipe de transplante e descobrir, após uma avaliação adequada, se ela pode ser uma doadora”, aponta.

Quais órgãos podem ser doados em vida

Em casos de doação em vida, há um princípio fundamental: a segurança do doador vem em primeiro lugar. Logo, além de avaliar se o órgão é adequado para o receptor, a equipe médica envolvida no transplante precisa determinar se a retirada dele pode ser realizada sem expor o doador a riscos considerados inaceitáveis, seja a curto ou longo prazo. 

Ainda de acordo com o médico, os dois principais órgãos que podem ser doados em vida são o fígado, com a retirada de apenas uma parte dele, e o rim. “O transplante de fígado, por exemplo, é uma cirurgia de maior porte, por isso, os critérios utilizados para avaliar um doador vivo podem ser mais restritivos, especialmente em pessoas mais velhas. No caso do rim, a idade, isoladamente não impede a doação. O que precisamos saber é se aquela pessoa apresenta condições de saúde que permitam a retirada de um rim com segurança e se ela terá boas condições de continuar sua vida com o rim restante”, esclarece.

O rim é o órgão sólido mais frequentemente doado em vida, já que o corpo humano conta com dois e, em determinadas condições, uma pessoa saudável pode viver normalmente com apenas um deles. “Também existe uma grande necessidade de transplantes renais e a doação em vida pode oferecer ao receptor uma oportunidade importante de tratamento”, assinala o especialista.

A idade ainda é um fator relevante

De maneira isolada, a idade avançada não representa uma exclusão automática para toda e qualquer doação em vida. Porém, à medida que uma pessoa envelhece, há maior probabilidade de desenvolver complicações de saúde como hipertensão, diabetes ou alterações da função renal, exigindo uma investigação ainda mais detalhada. 

“Com o aumento da idade, naturalmente cresce a possibilidade de a pessoa apresentar doenças que possam contraindicar a doação. Mas isso não significa que toda pessoa mais velha esteja impossibilitada de doar. Atualmente, muitas pessoas chegam aos 60, 65, 70 anos ou mais com excelente condição de saúde, vida ativa e boa expectativa de vida, e isso justifica o aumento de doadores vivos com maior idade”, avalia Geraldo.

Papel da família ou rede de apoio

Do ponto de vista legal, a idade do doador não muda a necessidade de autorização. Nos casos previstos pela legislação para parentes e cônjuges, não há necessidade de autorização judicial. Quando não existe o grau de parentesco permitido, pode ser necessária autorização judicial.

Nesse contexto, a família tem o papel crucial de oferecer apoio ao doador durante todo o processo. “A doação em vida é uma decisão muito significativa e envolve consultas, exames, cirurgia e um período de recuperação, portanto, contar com uma rede familiar e social que compreenda e apoie essa decisão faz diferença”, ressalta Geraldo. “No caso do transplante renal com doador vivo, existe um gesto de enorme generosidade. Uma pessoa saudável decide passar por uma cirurgia para oferecer um de seus rins a outra pessoa. Isso pode transformar uma história de perda em uma história de esperança, pode significar a possibilidade de uma nova vida para alguém que aguarda por um transplante”, conclui.

Sobre a HU Brasil

O HUB-UnB faz parte da HU Brasil desde janeiro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.

Foto: Magnifik

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